É difícil deixar de fazer o Cristo, diz Novais, sobre 58ª Paixão em Taboão

Ator Clayton Novais como Cristo em cena da condenação por tribunal romano com o filho Caíque como soldado (esq.)


ADILSON OLIVEIRA

Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra

O ator Clayton Novais, 37, será o centro as atenções na noite desta Sexta-feira Santa, 18 de abril, mas com sentimento de despedida. Ele será Jesus na 58ª edição da Paixão de Cristo, a histórica e tradicional encenação de Taboão da Serra, pela quarta e última vez, após ter interpretado o “personagem histórico que, independente da religião que cada um professa, toca o coração”, como próprio define, em 2007, 2008 e no ano passado. Ele fala da alegria de ter contracenado com o filho, que encarnou seu algoz, e da emoção com que ele e elenco estarão em cena pela recuperação da atriz Natasha Marques – que faria Claudia Prócula, esposa de Pilatos -, hospitalizada após acidente de moto, e morte do ator e amigo Mário Pazini.

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VERBO – Não sei se lembra de mim, sou jornalista, escrevo para o VERBO ONLINE, e ligado à paróquia lá no Pirajuçara…
Clayton Novais – Sim, lembro. E a [produtora] Dora [Nascimento] falou de você para mim.

VERBO – Ah, legal. A propósito, em 2012, salvo engano, você fez a Paixão lá com o grupo de jovens…
Novais – isso mesmo… Meu filho e eu…

VERBO – Você fez sacerdote, isso?
Novais – Isso, fui um dos sacerdotes, junto com o [amigo ator] Rogerio.

VERBO – Ah sim. Quem é seu filho?
Novais – Caique Novais. Ele fez um dos guardas que açoitavam o Cristo.

VERBO – Ok. E por falar nEle, como está a preparação para fazer o Cristo na 58ª Paixão?
Novais – Bem, tomamos dois baques grandes em sete dias, a morte do Mario Pazini e o acidente com a Natasha Marques. Mas está bem encaminhada, fizemos um ensaio geral domingo e o resultado foi muito bom.

VERBO – Teremos novidades neste ano?
Novais – Algumas mudanças, sempre tentamos alterar algo.

VERBO – Quais?
Novais – Estamos resgatando a questão dos milagres, [e] tentando humanizar mais o Judas, para tentar tirar esse estereótipo de traidor, alteramos a sequência da cena do enforcamento. Deixamos a cena da despedida de Jesus e Maria mais emocionante, mesmo utilizando o mesmo texto. E no início, na hora da tentação no deserto, temos uma surpresa. Temos no palácio de Herodes também dois capoeiristas, que farão saltos, para alegrar a “festa” no palácio

VERBO – Uma pitada contemporânea…
Novais – Sim. Na verdade, se fôssemos fazer o que historicamente deveria ser feito, o público e a Igreja não iam gostar, então adaptamos um pouco as coisas, né [sorri]. Mas eles [capoeiristas] usarão roupas da época…

VERBO – Certo. Como será a alteração do enforcamento de Iscariotes?
Novais – Bem, a cena acontecia antes da crucificação, agora jogamos para depois, a cena ocorrerá após levarem o corpo do Cristo para o sepulcro. Primeiramente, para tentar trazer mais emoção para o personagem, para que ele possa acompanhar todo esse suplício e presenciar a morte de seu mestre. Segundo, para não termos muita pausa entre uma cena e outra, e por ultimo, para dar mais tempo para que o Cristo seja limpo e possa vestir o manto da Ressurreição.

VERBO – Alteração significante…
Novais – Sim, é uma das tentativas de humanizá-lo…

VERBO – E a questão do palco no Morro [do Cristo]?
Novais – Pois é… Este ano, ele foi aumentado para dar mais segurança para os atores, pois o espaço era muito restrito e não tinha grades de proteção. Então, se não me engano, foi aumentado em 1,50 m por lado e colocado grades para proteção. Outra mudança foi o local do enforcamento. Como a Eletropaulo pôs alguns postes no morro, o local ficava escondido, então descemos e fizemos uma plataforma de 2 x 2 [metros] para essa cena.

VERBO – Segurança é muito importante, os artistas têm que ter isso…
Novais – Sim. Eu me preocupo muito com meus atores e cobro muito que todos estejam bem.

VERBO – Louvável! Prefeitura entendeu?
Novais – Sim, eu já havia falado isso ano passado, dos riscos… Graças a Deus, não aconteceu nada, e esse ano o Amaral [coordenador-geral da Paixão, que trabalha na Secretaria de Cultura] já veio com essas propostas. Levei o pessoal que participa da cena do Morro, e todos aprovaram, então ele mandou fazer…

VERBO – Como será o Cristo na pele de Clayton Novais?
Novais – Bem, será um ano especial, feliz e triste ao mesmo tempo. Não sei se vai entender, mas este será o meu último ano como Cristo, então fico feliz por ter feito esse personagem, ter recebido ótimas críticas e ter conseguido reaproximar pessoas que tinham se afastado da Paixão. Por outro lado, é dificil você entregar um personagem…

VERBO – Reaproximar pessoas da Paixão?
Novais – Sim. Em 2009, houve um problema, e outras pessoas assumiram a Paixão. Com isso, um número grande de pessoas se afastou, entre elas eu também. E tinha dito que só voltaria quando terminasse a gestão anterior. Ano passado, o Amaral me chamou para conversar e fez o convite para estar na direção e fazer o Cristo. Eu queria voltar, não estava preocupado com qual personagem iria fazer e fiquei muito feliz pelo convite. Mas deixei claro que faria no ano passado e, se quisesse, neste ano, depois passaria o bastão. Aí chamei algumas dessas pessoas que se afastaram, umas vieram, outras falaram que não tinham mais pique, mas o importante foi essa aproximação da velha guarda com a jovem guarda…

VERBO – Passar o bastão é importante, não?
Novais – Ah, claro, a Paixão precisa disso, acho que é cíclico, e meu ciclo termina este ano. Tenho certeza que os próximos farão um trabalho melhor que o meu. Digamos que cumpri minha missão!

VERBO – Quantos anos de Paixão no centro de Taboão?
Novais – Desde 2001, com um intervalo entre 2009 a 2012. E em 2012 na Paixão do Pirajuçara.

VERBO – Fez, entre 2001 e 2008, que personagens?
Novais – De 2001 a 2006, Caifás, em 2007 e 2008, Jesus.

VERBO – Será a terceira vez como Jesus?
Novais – Quarta: 2007, 2008, 2013 e agora 2014.

VERBO – E o peso de fazer Cristo é de alguma forma maior que o da cruz que carrega?
Novais – Sim, o fardo é pesado. Nos ensaios, as pessoas me chamam de Jesus, eu falo “Jesus não…, Clayton, Clayton, por favor”. Mas são pessoas da comunidade religiosa [Santuário Santa Terezinha], acabam fazendo uma ligação. Na via-crúcis, as pessoas chorando, pedindo para os guardas não baterem. Na Ressurreição, ver o povo lá no final do morro te esperando. Tem um fato interessante. No primeiro ano que fiz o Cristo, quando cheguei ao final do morro, uma senhora se ajoelhou e beijou minha mão. Não esqueci nunca, fiquei uma semana até me centrar de novo. E ter meu filho ao meu lado, sendo um dos meus algozes, traz uma força muito grande para mim. Sabe, Adilson, fico emocionado, no ano passado chorei muito, e neste ano já ‘tô’ chorando faz tempo. [sorri].

VERBO – Que experiência! E desde quando você, o elenco está entregue aos ensaios?
Novais – Desde a metade de janeiro. Mas as conversas entre a coordenação, produção e alguns atores do elenco principal, desde final de novembro.

VERBO – Os ensaios foram quando e onde geralmente?
Novais – Aconteceram no Cemur, aos domingos das 10h às 13h. Este ano, optamos por reduzir o horário para que o elenco pudesse ter mais tempo com suas famílias, e o resultado foi ótimo.

VERBO – Diálogos gravados, certo? Mas sempre muito reais, não?
Novais – Ah sim, buscamos na gravação essa verdade cênica, e mesmo quem nunca fez logo pega o ritmo… Esse ano, a maioria das faixas foi gravada de primeira, e não teve nenhuma que tivemos que refazer mais do que três vezes…

VERBO – É a experiência e o comprometimento? Seriedade…
Novais – Acredito que os dois, mas realmente sobressai o comprometimento… Este ano está sendo fantástico, exceto por esses dois problemas que ocorreram, com Marinho e Natasha, que acabaram por nos deixar tristes…

VERBO – Com toda razão.
Novais – Mas isso também nos dará forças para fazer melhor e dedicar a Paixão para os dois… E em breve a nossa querida menina estará conosco…

VERBO – Quantos atores no elenco?
Novais – Está composto por 76 atores/atrizes. Para mim, todos são principais, mas há os que têm mais falas…

VERBO – O padre Pedro [vigário do Santuário Santa Terezinha] fará [de novo] o sumo-sacerdote. Passou no teste, então.
Novais – Ano passado, ele fez Nicodemos e se saiu muito bem. Este ano, não tínhamos o sumo-sacerdote, aíi a Maira e o Amaral apostaram no padre. Eu fiquei com receio pela questão religiosa mesmo, não sabia como ele iria se portar, mas está mandando muito bem. Ele tem uma veia artística muito bacana, depois nos confidenciou que, antes do seminário, havia feito um curso de teatro…

VERBO – Os atores, mesmo os que não são profissionais, estão como? Qual o espírito em poder fazer a Paixão?
Novais – Então, estou muito satisfeito com todos… Todos estão com garra… Pedi desde o primeiro ensaio que dessem o máximo em minha despedida, e pedi um pouco mais para dedicarmos ao Marinho. E agora vai vir mais força e emoção para a recuperação da Natasha… O espirito principalmente dos “não” atores é de muita felicidade, todos à vontade, felizes por fazerem parte do processo.